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Estúdio Gastronômico

A apotecária

Amante da coquetelaria faz infusões com botânicos para provocar efeitos no corpo e na mente

Larissa Januário - Publicado em 06/12/2017, às 16h33

Garrafas que lembram vidros de remédio com líquidos pouco convencionais ocupam as estantes ao lado de mini barris de madeira. Lá estão ainda ervas secas e frescas, sementes, favas, outros tantos pequenos potes de temperos e mais um sem número de objetos antigos.

Muitos deles presenteados, herdados e garimpados em brechós e feiras de antiguidade. Parece que cruzamos a linha do tempo e adentramos numabotica, as tataravós das farmácias, que tiveram seu auge no período Vitoriano e detinham todo o poder de cura para os males da época.


Basilicata: infusão de manjericão com vodca + extrato de gengibre + açúcar + limão siciliano

Na verdade, porém, estamos no Apotecário, um speakeasy plantado no subsolo da galeria de arte Espaço Zebra, no Bexiga, bairro fora da rota mais badalada da noite paulistana. É lá, entre suas poções e objetos de arte, que a jornalista Neli Pereira recebe aos fins de semana os amigos e amigos dos amigos e aproveita para exercer sua faceta preferida: uma espécie de apotecária da era moderna. 


“Mais que uma tendência, as infusões são uma corrente cada vez mais viva da coquetelaria artesanal. Elas são uma forma de desenvolver criações exclusivas, com autenticidade e assinatura que vão além de apenas combinar ingredientes”


A prática é muito antiga. Há registros de mais de 2 mil anos antes de Cristo de profissionais de medicina rudimentar que usavam ervas, especiarias, raízes e até gorduras de origem animal como base para elixires, unguentos, xaropes, infusões e garrafadas na expectativa de curar e reestabelecer o corpo.

Hoje a prática é uma fonte e tanto de inspiração para a coquetelaria que rende resultados surpreendentes no copo. “Mais que uma tendência, as infusões são uma corrente cada vez mais viva da coquetelaria artesanal. Elas são uma forma de desenvolver coquetéis exclusivos, com autenticidade e assinatura que vão além de apenas combinar ingredientes.

E permite inclusive flertar com os ‘efeitos’ de cada botânico no corpo e na mente”, analisa. Foi em 2005, durante um mestrado em Londres, que Neli descobriu o universo das infusões como vertente cultural associada à sua paixão pela coquetelaria. De lá para cá, se dedica a estudar mais e mais sobre esse universo e trazê-lo para sua casa (ela e o marido moram no local). “Sempre estudei bebidas, minha formação é baseada em harmonização de vinhos e é ela que me dá base para adentrar esse universo das infusões e saber o que combina com o que.”

Nos seus preparos, ela geralmente dá preferência para bases alcoólicas mais neutras como o álcool de cereais que permite destacar bem o sabor do ingrediente infusionado. “Mas é possível brincar com misturas em que as características já presentes nas bebidas dão mais personalidade e harmonizam com o ingrediente usado”, compara. É como temperar.


O Apotecário – R. Major Diogo, 237, Bexiga, São Paulo – SP. Tel.: (11) 3105-5171



* Esta reportagem foi publicada originalmente na edição #8 da Revista Sabor.club. Para assinar, acesse http://sabor.club/assine/