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Avó do chá

Aos 90 anos, Ume Shimada recuperou a cultura da produção artesanal de chá no Brasil

por Larissa Januário - Publicado em 12/09/2017, às 10h29

OBAATIAN, COMO É CHAMADA CARINHOSAMENTE pelos seis filhos e 13 netos, tem aquela doçura que só as avós fofas têm. Ela nos recebe com uma fumegante xícara de chá na casa da família, nos fundos de uma ótica, no tradicional bairro paulistano da Aclimação. O trato delicado, no entanto, nada tem a ver com fragilidade. D. Elizabeth Ume Shimada é a dona de uma história repleta de empreitadas corajosas e muita vontade de viver. “Você quer saber minha idade? Tenho 20”, brinca.
Das vantagens de sermos um país jovem é que podemos conversar e conviver com nossa história. A trajetória de Obaatian se confunde com a chegada do chá no Brasil. “Eu conheço o chá desde os cinco anos, eu lembro que meu pai mostrou uma lata com um brotinho que ele plantou na areia. Mas era um chá muito ruim, um broto pequeno que não rendia uma bebida boa”, recorda a agricultora dos tempos em que sua família saiu de Fukushima para trabalhar em terras brasileiras.

Essas mudas de chá eram descendentes das primeiras trazidas por D. João VI ao Brasil, plantadas no jardim Botânico do Rio de Janeiro. Eram de origem chinesa e não se adaptaram bem às condições locais. Foi só com a intensificação da migração japonesa no início do século 20 que isso começou a mudar.
A cidade de Registro, no Vale do Ribeira, sul de São Paulo, foi um dos pontos oficiais de acolhimento dos trabalhadores agrícolas vindo do Japão. Entre  eles estava Torazo Okamoto, técnico especializado na produção de chá e nome importante desta história.

Em 1935, Okamoto, ao retornar do Japão ao Brasil, teria aproveitado a escala do navio na capital do antigo Ceilão – onde era produzido o melhor chá do mundo – e conseguido 100 sementes de Camellia Sinensis, nome científico do chá. Para despistar a fiscalização, ele as teria escondido no miolo do pão e assim conseguido entrar no País.

Das 100 sementes, 65 germinaram e geraram mudas que viriam a se tornar os famosos chazais do Vale do Ribeira. No auge da produção, o cultivo de chás na região chegou a cobrir 6 mil hectares de terra. Dentro deste contexto, estava a família Shimada. “Entre as décadas de 50 e 80 a cultura do chá predominou ali com mais de 40 fábricas e cerca de mil produtores. Mas hoje só tem pupunha e banana”, recorda Obaatian.
A valorização da moeda...*

 

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