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A fantástica história do menino Mocotó

Rodrigo Oliveira, chef e pai de cinco filhos, revela o tesouro que está por trás de tudo o que faz: a família

por Fernanda Meneguetti - Publicado em 11/09/2017, às 14h22

ELE PODERIA TER SIDO UM PERSONAGEM DE Gabriel García Márquez. Sonhador, estoico, no sentido da rigidez em relação a seus princípios, afetuoso. Misto de mocinho e Dom Quixote bemsucedido da gastronomia – quiçá por magias que os comensais desconheçam. Descendente da linhagem Oliveira do distrito do Mulungu, perdido no agreste pernambucano a uns 200 quilômetros de Recife, Rodrigo fantasiou ser arqueólogo à la Indiana Jones, quase se tornou gestor ambiental, mas foi cair na malha fina da cozinha que se enredou na profunda zona norte paulistana ou, como ele apelidou, “nas quebradas” da Vila Medeiros.
Da infância para a adolescência, era o moleque que passava fins de semana lavando a louça do boteco do pai, José Oliveira. Trocava partida de futebol e bate-volta para a praia para ficar perto dele. Limpou muito banheiro e serviu muito salão até conquistar a confiança das panelas e da administração. “Meu pai veio do sertão de Pernambuco. Com os irmãos, tio Gersino e tio Gilvan, começou com um empório que vendia mocofava (mistura de fava com caldo do mocotó). Dali surgiram três botecos, um deles é o Mocotó”.

Quando se deu conta de que, mais que um boteco, o Mocotó era o seu destino, o garoto se submeteu a um ritual de passagem. Já tinha 23 anos, seu primeiro carro (um Dodge Dakota 98) e milhares de quilômetros à frente, que seriam percorridos sozinho, por 50 dias. “Entre sertão, serra e litoral, visitei mercados, feiras, restaurantes, alambiques, vinícolas, produtores e donas de casa do Nordeste”, relembra ele.
Aquela travessia, em 2004, era o início do que se tornaria uma nova cozinha brasileira. Era hora de enfrentar a pouca afeição a renovações de Seu Zé. Sem descartar as guloseimas originais da família, equilibrou e aprofundou sabores. Eliminou o excesso de gordura e de sal, investiu em equipamentos de ponta e no próprio conhecimento para aprimorar a cozinha paterna, para reverenciar produtos tipicamente sertanejos como a carne-seca e a mandioca. “No sertão, a comida tem que ser gostosa, já que a vida costuma ser amarga”, justifica. A fala é dessas de herói, dessas que confirma a vocação...*

 

*Leia a reportagem completa e receitas exclusivas assinadas pelo chef Rodrigo Oliveira na edição #8 da revista Sabor.club, acesse http://sabor.club/assine.